Acidente nuclear de Chernobyl - Parte 5

Risco de mais explosões

Em primeiro plano, o monumento às vítimas do desastre. Atrás, o sarcófago sobre o Reator 4 de Chernobil, fotografado em 2018.
Dois andares de piscinas borbulhantes embaixo do reator serviam como um grande reservatório de água para as bombas de resfriamento de emergência e como sistema de supressão de pressão capaz de condensar vapor no caso de um pequeno tubo de vapor quebrado; o terceiro andar acima deles, abaixo do reator, serviam como túnel de radiação. O vapor liberado por um cano quebrado deveria ter entrado no túnel de vapor e guiado até as piscinas borbulhantes através de uma camada de água. Após o desastre, as piscinas e os porões foram inundados por causa da ruptura dos canos d'água de resfriamento e acumularam água de combate a incêndios e constituiu um sério risco de explosão de vapor.[98]
O grafite fumegante, combustível e outros materiais nucleares, registrando uma temperatura superior a 1 200 °C,[99] começaram a queimar o chão do reator e a se misturar com o concreto fundido do revestimento do reator, criando um corium, um material radioativo semi-líquido comparado a lava (que no caso de Chernobil ficou conhecido como "Pé de Elefante").[100][101] Se essa mistura tivesse derretido pelo chão na piscina de água, temia-se que poderia criar uma série de explosões de vapor sérias o suficiente para ejetar novamente na atmosfera enormes quantidades de materiais radioativos do reator. Para evitar isso, seria necessário drenar a piscina formada sob o reator.[102]
A piscina borbulhante poderia ser drenada abrindo seus portões de eclusa. Contudo, as válvulas que controlavam isso estavam debaixo d'água, localizada num corredor inundado no porão do complexo. Voluntários em roupas de mergulho e respiradores (para proteção contra aerossóis radioativos) e equipados com dosímetros, entraram na profunda água radioativa e conseguiram abrir as comportas.[103][104] Os homens que conseguiram este feito foram os engenheiros Alexei Ananenko e Valeri Bezpalov (que sabiam onde estavam as válvulas), acompanhados pelo supervisor de turno, Boris Baranov.[105][106][107] Com o sucesso desta operação, o risco de novas explosões de vapor foi eliminado. Inicialmente acreditava-se que os três homens teriam morrido devido a envenenamento radioativo nos dias seguintes ao ocorrido, porém eles de fato sobreviveram. Em maio de 2018, eles receberam a medalha Ordem para Coragem das mãos do presidente Petro Poroshenko.[108] De fato, Alexei Ananenko continua a trabalhar na industria nuclear e frequentemente se irrita com o sensacionalismo jornalistico que envolve Chernobil.[109] Já Bezpalov estava vivo até 2005 quando faleceu de insuficiência cardíaca, aos 65 anos.[110] Quando as comportas d'água foram abertas pelo grupo de Ananenko, bombas d'água dos bombeiros foram usadas para drenar o porão. O esvaziamento só foi completado em 8 de maio, após 20 mil toneladas métricas de água serem drenadas.[98]
Mesmo sem a piscina borbulhante nos porões da usina, ainda havia uma possibilidade de uma explosão de vapor acontecer se o núcleo fundido tivesse chegado ao lençol freático abaixo do reator. Para reduzir a possibilidade disso acontecer, foi decidido congelar a terra sob o reator, o que também estabilizaria as fundações abaixo da usina. Utilizando equipamento de perfuradores de poços de petróleo, a injeção de nitrogênio líquido começou em 4 de maio. Foi estimado que 25 toneladas métricas de nitrogênio líquido foram usadas por dia para manter o solo congelado a −100 °C.[27] Essa ideia foi logo abandonada.[111]
Como uma alternativa ao nitrogênio, trabalhadores de minas de carvão foram utilizados para escavar um túnel sob o reator para fazer espaço para um sistema de refrigeração. O projeto final improvisado para o sistema de refrigeração era incorporar uma formação em espiral de tubos esfriados por água e cobertos no topo com uma uma fina camada de grafite termicamente condutor. A camada de grafite como um material refratário iria rapidamente esfriar o possível óxido de urânio fundido sem queimar. Esta camada de placa de resfriamento de grafite deveria ser encapsulada entre duas camadas de concreto, cada um com um metro de grossura para estabilização. Este sistema foi desenhado por Leonid Bolshov, o diretor do Instituto de Segurança e Desenvolvimento Nuclear, formado em 1988. O "sanduíche" grafite-concreto de Bolshov seria similar em conceito com o recuperador de corium que agora faz parte de muitos projetos de reatores nucleares.[112]
A placa de resfriamento de grafite de Bolshov, juntamente com a proposta anterior de injeção de nitrogênio, não foram utilizados após a queda nas temperaturas aéreas e relatórios indicativos de que o derretimento do combustível havia parado. Foi mais tarde determinado que o combustível havia passado por três andares antes de descansar em uma das várias salas do porão. O canal subterrâneo de precaução com seu sistema ativo de refrigeração foi então considerado redundante, já que o combustível era auto-refrigerante. A escavação foi então simplesmente preenchida com concreto para fortalecer as fundações abaixo do reator.[113]

Remoção dos destroços

Nos meses seguintes a explosão, enquanto a limpeza seguia de forma efetiva pelas regiões vizinhas a Chernobil, a atenção das autoridades se voltou para a remoção dos destroços radioativos no teto da usina.[114] Os piores destroços radioativos foram coletados dentro do que restava do reator, no entanto, foi estimado que havia aproximadamente cem toneladas de detritos naquele telhado como resultado da explosão e que tinha que ser removido para garantir a construção segura do "Sarcófago" – uma estrutura de concreto que sepultaria o reator e reduziria a poeira radiativa que o núcleo aberto despejava na atmosfera.[114] O plano inicial era utilizar robôs para limpar os destroços no telhado. Os soviéticos utilizaram ao menos 60 robôs remotamente controlados, porém a maioria deles foram perdidos pois os altos índices de radiação na área destruiu os circuítos eletrônicos das máquinas, tornando-as inúteis.[114]
Consequentemente, os materiais mais radioativos tiveram de ser removidos com pás por liquidadores do exército soviético (chamados de 'bio-robôs' pelas autoridades). Os liquidadores utilizaram suas pás e removeram os destroços radiativos e se livraram da maioria deles jogando-os de volta no reator aberto, ficando nos telhados por aproximadamente 40 a 90 segundos por vez pois os altos níveis de radiação no prédio do reator 4 impediam trabalhos contínuos, fazendo com que qualquer exposição superior a 90 segundos poderia ser fatal. Entre os materiais mais radioativos estavam pedaços de grafite que vinham do núcleo do reator. Ordens iniciais foram dadas para que os grupos de militares que fizessem a limpeza do teto deveriam fazer apenas um turno, para evitar super exposição a radiação, mas muitos soldados o fizeram cinco ou seis vezes. Apenas 10% dos destroços no teto do prédio do reator foram removidos por robôs, com o resto sendo limpos por aproximadamente cinco mil homens que, em média, absorveram pelo menos 25 rem (250 mSv) de radiação cada.[114]
Naquele período ainda havia medo de que o reator poderia explodir uma segunda vez e uma estrutura de contenção foi planejada para evitar que entrasse chuva no núcleo e pudesse provocar o início de uma reação em cadeia explosiva. Também havia necessidade de conter o material radioativo que vazava do reator e subia para a atmosfera. A construção do "Sarcófago" (como ficou conhecido) foi uma das maiores tarefas de engenharia civil da história, envolvendo 250 mil trabalhadores que se revesavam no trabalho para evitar serem expostos a muita radiação.[74] O cineasta ucraniano Vladimir Shevchenko, que filmava os esforços de limpeza do reator 4, capturou em vídeo a queda de um helicóptero Mi-8, em 2 de outubro de 1986, quando as hélices da aeronave se emaranharam com um cabo de um guindaste. O helicóptero caiu perto do reator danificado e todos os seus quatro tripulantes morreram na queda.[115]
Em 21 de dezembro de 1986, a estrutura de concreto do "Sarcófago de Chernobil" começou a ser erguida no prédio do Reator 4 para selar o núcleo e todos os destroços radioativos que vazavam dele.[85] Enquanto isso, os liquidadores continuavam com a limpeza de toda a região ao redor de Chernobil, limpando os prédios e ruas com água e uma substância chamada "Bourda", um fluido de polimerização pegajoso criado para engajar a poeira radioativa e quando seco podia ser removido e compactado em configurações.[116] Um "metal de limpeza" foi dado aos trabalhadores.[117]
Embora muitos dos veículos de emergência utilizados durante o gerenciamento da crise tenham sido enterrados em trincheiras, a maioria dos veículos, como os dos liquidadores, incluindo caminhões e helicópteros, ainda permanecem abandonados em campos abertos na área de Chernobil. Desde então, catadores e curiosos já invadiram o local e removeram várias partes deste veículos, mesmo que muitos deles ainda sejam radioativos.[118] Os liquidadores trabalharam sob condições deploráveis, não recebendo muitas informações a respeito da magnitude do perigo que enfrentavam e vários não tinham proteções adequadas. Muitos, ou talvez a maioria, foram expostos a níveis de radiação superiores a considerada segura. Nas décadas após o desastre, muitos dos liquidadores tiveram que batalhar na justiça para conseguir o direito de ganhar assistência médica governamental para conseguir lidar com as consequências da radiação em sua saúde.[85][119]
Um helicóptero pulveriza um líquido de descontaminação perto do reator de Chernobil em 1986.
Durante a construção do sarcófago, um grupo de cientistas reentrou na sala do reator como parte de uma investigação conhecida como "Expedição Complexa", para localizar e conter o combustível nuclear para evitar uma segunda explosão. Esses cientistas coletaram manualmente várias barras de combustível frio, mas um imenso calor ainda emanava do núcleo. As taxas de radiação em diferentes partes do edifício eram monitoradas ao furar buracos no reator e inserindo longos tubos detectores de metal. A área ainda era incrivelmente perigosa e a maioria dos cientistas foram expostos a altos níveis de radiação e poeira contaminada.[74]
Após seis meses de investigação, em dezembro de 1986, com a ajuda de uma câmera remota, cientistas descobriram uma massa intensamente radioativa com mais de dois metros de largura no porão da Unidade Quatro, que eles chamaram de "Pé de Elefante" por sua aparência enrugada. Posteriormente, em 1996, uma foto da substância foi tirada por Artur Korneyev e mandada para os Estados Unidos para análise. Na legenda da foto dizia que o homem que fotografou a substância faleceu pouco tempo depois, indicando que, mesmo após uma década, o "Pé de Elefante" permanecia altamente radioativo.[120] A massa dessa substância era composta de areia derretida, concreto e uma enorme quantidade de combustível nuclear que escapou do reator. O concreto sob o reator estava fumegante de quente, e foi destruído por lava agora solidificada e formas cristalinas desconhecidas denominadas chernobilite. Foi concluído então, nessa investigação, que uma segunda explosão do reator não era mais possível.[74]
Os esforços de limpeza dentro das zonas contaminadas ao redor de Chernobil e nas cidades e vilas próximas durou mais de seis meses e foi uma tarefa gigantesca.[85] A razão oficial para que os perigosos esforços de descontaminação tenham começado tão cedo, ao invés de esperar algum tempo para que os índices de radiação decaíssem naturalmente, era que o governo pretendia repopular aquela área e reutilizar seu solo para cultivo. Dentro de quinze meses, perto de 75% das terras ao redor da zona de Chernobil já estavam aptas para recultivamento, embora menos de um-terço das vilas abandonadas voltaram a ser povoadas. A cidade de Pripyat permanece abandonada e o governo ucraniano não permite que seus ocupantes originais regressem a área para reivindicar seus antigos lares, embora a região esteja aberta para visitação turística (com muitas áreas permanecendo proibidas devido ao risco de contaminação). Já nos campos, as terras que voltaram a ser cultivadas passaram a ter pouco valor e a agricultura na região como um todo se tornou marginal. Em diversas áreas, especialmente na Bielorrússia, o solo permanece altamente contaminado. De acordo com o historiador David Marples, o governo soviético tinha um propósito psicológico maior com a limpeza: eles queriam evitar o pânico em relação à energia nuclear e até mesmo manter a Usina de Chernobil ativa.[85]
De acordo com a OMS, cerca de 240 mil trabalhadores foram engajados nas atividades de limpeza na zona de Chernobil entre 1986 e 1987. No total, mais de 600 mil pessoas trabalharam como liquidadores.[121]

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