Acidente nuclear de Chernobyl - Parte 4
Níveis de radiação
Os níveis de radiação ionizante nas áreas mais afetadas no prédio do reator foram estimadas em 5,6 roentgens por segundo (R/s), o equivalente a 20 mil roentgens por hora. Uma dose letal de radiação é equivalente a 500 roentgens (ou ~5 Gray (Gy) em unidades modernas). Muitos trabalhadores da usina receberam quase cinco vezes a dose letal de radiação, absorvendo-a totalmente em menos de um minuto. Contudo, um dosímetro capaz de medir até 1 000 R/s foi enterrado debaixo dos escombros do prédio colapsado e outro falhou ao ser ligado. Todos os demais dosímetros só tinham alcance de medir 0.001 R/s e mostravam apenas a leitura de "medição além da escala". Assim, os trabalhadores na área do reator tinham conhecimento de contaminação de apenas 3,6 R/h, embora em muitas áreas a radiação era extremamente superior a isso.[27]
Devido às imprecisas baixas leituras, Aleksandr Akimov, o chefe dos trabalhadores da área do reator, assumiu que o reator 4 estava provavelmente intacto. As evidências de pedaços de grafite e combustível nuclear espalhados pelo prédio foram ignoradas, e novas medições, que começaram a chegar por volta das 04:30h, mostrando níveis de radiação mais altas foram também ignoradas pois foi assumido que o equipamento estava defeituoso, explicando assim a discrepância nas medições.[27] Akimov permaneceu com seus companheiros na sala de controle no prédio do reator até a manhã, enviando subordinados para tentar continuar a mandar água para o reator, fazendo isso possivelmente sob ordens de Anatoly Dyatlov, o vice engenheiro–chefe da usina de Chernobil. Nenhum dos trabalhadores da sala de controle utilizou qualquer equipamento de proteção. A maioria deles, incluindo Akimov, morreram dentro de três semanas como consequência de envenenamento por radiação.[79][80] Dyatlov, que supervisionou o teste que levou ao acidente, inicialmente estava em negação que o retor explodiu. Ele disse, posteriormente, que essa era uma opinião generalizada entre a equipe na sala de controle. Ao deixar o prédio, Dyatlov foi se reportar diretamente a Nikolai Fomin (engenheiro chefe da usina) e Viktor Bryukhanov (diretor da usina), onde ressaltou aos dois que o núcleo do reator estava intacto. Bryukhanov reuniu os representantes do Partido em Pripyat e informou o Comitê Central do ocorrido, tentando se eximir de culpa e afirmando que o desastre não foi tão ruim quanto parecia. Ele foi afastado do seu cargo menos de 24 horas após o acidente, junto com Fomin, enquanto Dyatlov foi enviado para o hospital com sintomas de síndrome aguda da radiação. Os três sobreviveram e seriam responsabilizados pelo acidente de Chernobil.[81]
Evacuação
A cidade de Pripyat, vizinha a usina, não foi evacuada imediatamente. A população local, na noite do acidente, continuava com suas vidas normalmente, completamente alheios ao que estava ocorrendo. Contudo, nas horas posteriores a explosão, algumas pessoas começaram a ficar doentes. Foi reportado que muita gente em Pripyat passou a sofrer de fortes dores de cabeça e a sentir gosto metálico na boca, junto com graves tosses e vômitos.[82] Como a usina era administrada pelo pessoal de Moscou, o governo ucraniano não foi prontamente notificado do acidente.[83]
Valentyna Shevchenko, a Presidente do Verkhovna Rada, o Soviete Supremo da Ucrânia Soviética, relembrou que o ministro interino do interior ucraniano, Vasyl Durdynets, telefonou para ela às 09:00h da manhã para informá-la dos eventos atuais; apenas no final da conversa ele a informou do incêndio na Usina de Chernobyl, mas afirmou que havia sido controlado e que tudo havia retornado ao normal. Quando Shevchenko perguntou "Como está o povo?", ele respondeu que não havia nada para se preocupar: "Alguns estão celebrando casamentos, outros cuidando do jardim e outros pescando no Rio Pripyat".[83] Shevchenko então falou ao telefone com Volodymyr Shcherbytsky, chefe do Comitê Central do Partido Comunista Ucraniano e o de facto chefe de Estado da Ucrânia Soviética, quando informou que esperava que uma comissão, sob comando de Boris Shcherbina, vice-presidente do Conselho de Ministros da União Soviética, fosse formada e enviada para Pripyat.[83]
A comissão de gestão da crise foi estabelecida na tarde do dia do acidente para investigar o ocorrido. A comissão foi formada por Boris Shcherbina, sob instruções do premier Mikhail Gorbatchov; o grupo de cientistas era encabeçado por Valery Legasov, diretor assistente do Instituto Kurchatov, e incluía proeminentes cientistas, como o especialista nuclear Evgeny Velikhov, o hidro-meteorologista Yuri Izrael, o radiologista Leonid Ilyin, entre outros. Eles voaram para o Aeroporto Internacional de Boryspil e chegaram na usina na noite de 26 de abril.[83] Nessa altura, duas pessoas já tinham morrido e outras 52 haviam sido hospitalizadas com envenenamento radioativo. A delegação logo obteve ampla evidência de que o reator havia sido destruído e que altos níveis de radiação estavam sendo despejados na atmosfera, levando a incontáveis contaminações. Nas primeiras horas da manhã de 27 de abril, aproximadamente 36 horas após a explosão, foi ordenada a evacuação de Pripyat. Foi planejado inicialmente que a cidade ficaria desabitada por apenas três dias; mais tarde esta decisão se tornou permanente.[83]
Às 11:00h de 27 de abril, frotas de ônibus começaram a chegar em Pripyat para a evacuação.[83] Os cidadãos começaram a ser retirados às 14:00h e foram informados que eles tinham apenas alguns minutos para evacuar e podiam levar pouquíssimos pertences por pessoa. O anúncio traduzido ficou assim:
Para agilizar a evacuação, os residentes foram instruídos para levar apenas o necessário, dizendo-lhes que ficariam longe por apenas três dias. Como resultado, a maioria das pessoas deixou para trás boa parte dos seus bens pessoais, muitos dos quais permanecem lá até os dias atuais. Às 15:00h, cerca de 53 mil pessoas já haviam sido evacuadas para vilarejos próximos na região de Kiev.[83] No dia seguinte, começaram planos para expandir as evacuações em uma área de mais de 10 km.[83] Dez dias após o acidente, a zona de evacuação foi expandida novamente para englobar 30 km.[85] Foi então implementada a Zona de exclusão de Chernobil, que permanece até os dias atuais, embora seu formato e tamanho tenham sido expandidos com o tempo.[86]
Ao todo, cerca de 135 mil pessoas foram evacuadas de forma permanente de Pripyat e das zonas vizinhas.[44] Entre 1986 e 2000, o realocamento permanente afetou cerca de 350 mil pessoas dentro do Oblast de Kiev devido ao desastre de Chernobil.[87][88]
Anúncio tardio
A evacuação de Pripyat começou antes da União Soviética reconhecer formalmente o acidente. Na manhã de 28 de abril, os níveis de radiação ficaram tão altos que foram detectados na Central nuclear de Forsmark, na Suécia,[89][90] a mais de mil quilômetros de distância de Chernobil. Os trabalhadores de Forsmark reportaram o caso para a Autoridade Sueca de Segurança Radiológica, que determinou que a radiação se originou em outro lugar.[90] No mesmo dia, o governo sueco contactou a liderança política soviética em Moscou perguntando se houve algum acidente nuclear no território da União Soviética.[90] Os soviéticos inicialmente negaram qualquer incidente, mas quando os suecos sugeriram que iriam registrar um alerta oficial junto à Agência Internacional de Energia Atômica, o governo soviético admitiu ao mundo o acidente que aconteceu em Chernobil.[90]
A princípio, os soviéticos afirmaram que o acidente tinha sido "pequeno", mas após eles terem evacuado cem mil pessoas da região, a comunidade internacional finalmente passou a tomar conhecimento da magnitude da situação.[91] Às 21:02h de 28 de abril, o governo soviético emitiu, em rede nacional de televisão, seu primeiro pronunciamento oficial sobre o desastre. O anúncio tardio durou aproximadamente 20 segundos e foi lido no programa de TV Vremya: "Houve um acidente na Usina de Força de Chernobil. Um dos reatores nucleares foi danificado. Os efeitos do acidente estão sendo remediados. Tem sido dada assistência para as pessoas afetadas. Foi criada uma comissão de investigação."[18][92][92] Esta foi toda a mensagem. A agência de notícias TASS então discutiu sobre o Acidente de Three Mile Island e outros desastres nucleares em solo americano, um exemplo comum da tática soviética conhecida como whataboutism (uma versão da falácia do Tu quoque). Contudo, o anúncio de que uma comissão de gestão de crise havia sido criada indicou, para observadores externos, a seriedade do acidente,[93] e subsequentes mensagens foram substituídas por música clássica, um método comum pra preparar o público para o anúncio de uma tragédia.[18]
Ao mesmo tempo, a ABC News divulgou seu próprio relatório sobre o desastre.[94] A agência de notícias americana UPI afirmou, inicialmente, que duas mil pessoas teriam morrido, citando uma fonte dentro de Pripyat. O governo soviético negou e afirmou que apenas duas pessoas tinham morrido nas primeiras vinte e quatro horas do acidente. Ambos os lados da Guerra Fria, seguindo a "teoria dos jogos", tentavam pintar o outro lado da pior maneira possível.[95]
Valentyna Shevchenko foi a primeira autoridade ucraniana a visitar o local do desastre, em 28 de abril. Ela então conversou com a equipe médica e com pessoas da cidade, que estavam calmas e esperavam retomar a vida normal em suas casas. Shevchenko retornou para seu lar à meia-noite, parando num posto de controle radiológico em Vilcha, um dos primeiros do seu tipo instalados na região após o desastre.[83]
Houve uma notificação de Moscou de que não havia motivo para adiar as celebrações do Dia do Internacional do Trabalhador em 1 de maio em Kiev (incluindo os desfiles), mas em 30 de abril houve uma reunião do Comitê Central do Partido Comunista ucraniano para discutir os planos da parada do Dia do Trabalhador. Cientistas reportaram que o nível radiológico medido em Kiev estava normal. Na reunião, que terminou às 18:00h, foi decidido que as celebrações seriam encurtadas de quatro horas para menos de duas.[83] Vários prédios em Pripyat foram mantidos abertos para serem usados pelos trabalhadores da usina. Entre esses prédios estavam a fábrica Jupiter, fechada oficialmente em 1996, e o complexo da Piscina Azure, fechado em 1998, ambas utilizadas pelos Liquidadores de Chernobil.[96][97]